sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Direito ao Foda-se


O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional quantidade de"foda-se!" que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas Me liberta. "Não quer sair comigo? Não? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!" O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia? Prá caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que"Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas Prá caralho, o Sol é quente Prá caralho, o universo é antigo Pra caralho, eu gosto de cerveja Pra caralho, entende? No gênero do "Prá caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!" O "Não, não e não!"é tampouco nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo!" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro prá ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo "Danielzinho, presta atençao, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PHD porra nenhuma!" ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provêsensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e mais recentemente o "prepone" - presidente de porra nenhuma.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta que pariu!", ou seu correlato "Pu-ta-que-o-pa-riu!!!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça. E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cú!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cú!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cú!".
Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoe a camisa e saia na rua, vento batendo na face, olhar firme, Cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios. E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O que você fala? "Fodeu de vez!". Liberdade, Igualdade, Fraternidade e F O D A - S E!

Este texto é ótimo, do escritor Millôr Fernandes.

Existe até uma peça com esse texto, insenada pela NNF:

16 Comments:

Stanley Marques said...

Mais um magnífico texto do gênio Millôr Fernandes. Sinto-me obrigado a concordar com o alívio que sentimos quando soltamos alguns desses tão aclamados palavrões. Muito bom seu blog!!

conheça o ANTOLOGIA RACIONAL
http://www.antologiaracional.com
parceria?

Ramon Assis said...

O que eu posso lhe dizer é: Foda-se com seu texto bom!

Foda-se cara, foda-se aquele miseravel do meu vizinho, fodam-se meus professores.


Isso aê, obrigado por essa consulta psicologo!!!!!


www.assiris.blogspot.com

Prii Persi said...

Assisti ao espetáculo do NNF, e particularmente ameei!

Acho que o fato de abstrair as coisas é fundamental.

# Ligando o foda-se e sendo feliz!

Carlos said...

Adoro esse texto.

Parabéns pelo blog.

Rosangela said...

NUnca havia lido este texto...Me acabei de rir...E os professores de português que não o leiam...rsrsrsrsrsrsrs

Beijso no coração...Belo blog

RETICÊNCIAS DIGITAIS said...

O foda-se é essencial.

Sobre personalizar... cara não tem jeito, tem de abrir a configuração em HTML do blog e trabalhar na base de tentativa e erro. Foi assim que configurei o meu.

Ah sim! Você Esta linkado no meu blog!

PS: tire a verificação de palavras pra comentários.

RETICÊNCIAS DIGITAIS said...

Ah sim, nos seus blogs prefeiros coloque www.reticenciasdigitais.blogspot.com E não reticencias.org que é outro blog.

Té mais.

Marcelle e Morgana said...

Hhahahaahha,
demais !

Concordo com tudo, :)
então foda-se ficar filosofando aki xD

beeijos

RETICÊNCIAS DIGITAIS said...

Velho: O link que você colocou ainda esta apontando para reticencias.org.
faz o seguinte: vai no codigo da sua pagina e onde está o link pra reticencias, selecione tudo e cole o codigo do banner que eu tenho lá no blog.

www.reticenciasdigitais.blogspot.com

dark mind said...

show de bola este texto, está de parabéns e não há com o que discordar!!!parabéns!

RETICÊNCIAS DIGITAIS said...

Oi. Vai lá no meu blog que tem uma explicação sobre como colocar o link.

Abraço.

www.reticenciasdigitais.blogspot.com

Paulo Henrique said...

Foda-se
vo liga isso já
foda-se
o importante é viver o momento e não pensar nele xD

http://mundo-curioso-web.blogspot.com/

Alexandre said...

Ô cara, eu procurava esse texto pra tudo qto é lado, heheehe, mas ñ sabia que era do Millôr. Tinha lido ele há tempos atrás e tentava pegar de volta... Eis que vejo ele aqui agora
Abraço
http://falandoprasparedes.blogspot.com

André said...

Caralho, muito bom esse texto, o palavrão ajuda bastante em diversas situações, quando uma pessoa está te enchendo o saco, por exemplo, se vc falar: " por favor não fala assim, que chato" o infeliz continuará a encher seu saco, mas se vc disser: "caralho meu, foda-se essa merda, vai tomar no seu cu, seu escroto" a encheção se cessará no mesmo momento, vc diz isso e sai andando e foda-se mesmo, hahahaha...
Adorei o texto...

Sopa das Letras said...

Realmente o texto é primoroso! A questão do palavrão é mal vista por famílias conservadoras e entre outras pessoas que acreditam ser uma tremenda falta de educação, pois não concordo 100% com isso. Lingüisticamente é totalmente perfeito para algumas ocasiões. Se você esstá enfurecido, certamente não se privará de encher a boca e soltar um baita palavrão. É a melhor forma de expressar determinadas emoções. Se temos a "causa e o efeito", temos o palavrão pós emoções.
Obrigado!

http://sopadasletras.blogspot.com

Fábio C. Martins said...

Prefiro o Prá Caralho! Esse sim exprime exatamente o sentimento de grandeza do que se quer expor!

Bom, Foda-se também, não estou aqui pra dar a minha opinião sobre o teu post, aliás, Nem Fodendo que eu faria uma coisa dessas. Além do mais, já existe comentários Prá Caralho nesse tópico. Chega!

Abraços

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